Efeito dominó: alta de petróleo estimularia reajuste do etanol e ajudaria a São Martinho (Imagem: Money Times/Gustavo Kahil)

Não é de hoje que a gasolina, o diesel e outros derivados do petróleo têm se tornado cada vez mais caros. Em 2020, os combustíveis já encareceram – e os valores que pareciam ter atingido um patamar já suficientemente elevado, subiram mais degraus em 2021. A alta pesou no bolso do consumidor.

E não só no Brasil: uma estimativa da American Automobile Association (AAA) aponta que a gasolina nos Estados Unidos pode aumentar para um valor recorde em sete anos.

No domingo, 18, um galão de gasolina em algumas cidades norte-americanas custava US$ 3,14 (cerca de R$ 16,23) — quase US$ 1,00 a mais do que em julho do ano passado. No Brasil, um galão custa, em média US$ 4,22 (ou R$ 21,82, na cotação atual).

Segundo o site GlobalPetrolPrices, que monitora o valor do combustível, Hong Kong tem o galão de gasolina mais caro do mundo, a US$ 9,66, enquanto a Venezuela tem o mais barato, custando US$ 0,076. No Reino Unido, onde a gasolina é mais cara do que no Brasil, um galão custa US$ 6,95.

No ano passado, com o distanciamento social e mais pessoas em casa, a demanda por petróleo caiu, sendo que muitos países tinham grandes estoques do combustível. E aqui vale aquela história: estoques cheios e baixa procura empurraram os preços para baixo.

Os valores do petróleo ficaram abaixo de zero pela primeira vez na história. No dia 20 de abril de 2020, o petróleo cru dos EUA fechou em -US$ 37 o barril (cerca de -R$ 195 na época), marca que poucos imaginavam que seria ultrapassada.

Mais de um ano depois, a situação é oposta. A demanda voltou com boa parte das pessoas retornando aos seus trabalhos presenciais. Os sinais se inverteram e o salto para o positivo foi alto. Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA na sigla em inglês), a demanda mundial por petróleo vai superar o nível pré-pandemia no fim de 2022.

Os preços sobem também porque, no mundo, a oferta de petróleo está reduzida. Países como os Estados Unidos, Arábia Saudita, Rússia, Canadá, China, Iraque, Emirados Árabes Unidos, Brasil, Irã e Kuwait são responsáveis pelo abastecimento mundial do produto.

Esse cenário, porém, pode ser atenuado depois de um esperado acordo entre países da Opep e aliados como a Rússia, anunciado neste domingo, 18. Eles decidiram aumentar a produção para conter a escalada nos preços do barril. A oferta diária vai atingir 400 mil barris até o fim do ano que vem. A mudança passa a valer em agosto.

Esse passo, como explica a comentarista de economia da CNN Thais Herédia, no podcast Abertura de Mercado, pode desafogar a demanda e, mais que tudo, o medo da inflação, o vilão mundial do pós-pandemia.

No momento, segundo o professor de economia da FEA-USP, Paulo Feldmann, a oferta é muito menor do que a demanda e o fato de países mais desenvolvidos estarem se recuperando economicamente está intrinsecamente ligado à alta dos preços. “Com países como Estados Unidos e China se recuperando, a produção aumenta, as pessoas voltam a viajar de avião, por exemplo – e isso consome muito petróleo”, diz.

Além disso, no Brasil, ainda que o aumento na oferta de petróleo alivie os preços, a cotação do dólar em relação ao real afeta diretamente o valor do combustível. Com a valorização da moeda norte-americana em detrimento do real, os preços sobem. “Até antes da pandemia, estávamos acostumados com o dólar abaixo dos R$ 4. De repente, a moeda foi para R$ 5. E o que custa US$ 70 dólares chega no Brasil cinco vezes mais caro”, afirma.

Pires afirma que os impostos no Brasil também impulsionam os preços. “Metade do valor do combustível no Brasil é imposto. A única maneira que se tem para reduzir o custo do combustível sem intervir na Petrobras é por meio da diminuição dos impostos, o que poderia alterar o impacto do dólar alto, entre outros”, afirma o diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), Adriano Pires.

Precificação

A forma como os combustíveis são cobrados em cada país é um fator bastante importante para entender a alta nos preços.

No Brasil, por exemplo, no caso da gasolina e do diesel, a adição de outros combustíveis à mistura eleva os preços de ambos os combustíveis. Acrescenta-se à gasolina, que sai pura da refinaria, o etanol anidro, na proporção de 27% para a gasolina comum e aditivada e 25% para a gasolina premium.

Já o diesel sofre a adição de 12% de biodiesel. Os custos são incorporados ao preço dos combustíveis que vai para as revendedoras, onde o preço final é definido com o custo de manutenção dos postos de gasolina e as margens de lucro das revendedoras.

O preço dos combustíveis é liberado na bomba – ou na revenda, no caso do gás de cozinha. No entanto, grande parte do que o consumidor desembolsa reflete o preço cobrado pela Petrobras na refinaria. Como em um efeito bola de neve, alterações nos preços da Petrobras, que seguem a cotação internacional e o câmbio, refletem-se nos demais componentes do preço até chegar ao custo final.

Ao sair da Petrobras, o combustível tem o valor do produto somados aos tributos federais: a Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide), partilhada com estados e municípios; o Programa de Integração Social (PIS) e a Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins).

Ao chegar às distribuidoras, o preço sobre o combustível passa a sofrer a incidência do Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), definido por cada um dos estados e o Distrito Federal. Quando há aumento de ICMS, o preço pode subir novamente porque os postos costumam repassar o reajuste para o consumidor.

No Reino Unido, o preço de um litro de combustível pode ser dividido em quatro partes: a taxa de combustível, que é a maior proporção do valor, é um imposto adicionado pelo governo; o custo do petróleo, por sua vez, também afeta o preço para o consumidor, e é a segunda maior porção; em terceiro está o Imposto por Valor Agregado (IVA), valor também nivelado com base nas compras de petróleo. Por fim, para compor o preço da gasolina no território britânico, estão as distribuidoras, que adicionam um valor ao combustível (pequeno quando comparado aos demais itens).

Vai aumentar mais?

Para os especialistas ouvidos pelo CNN Brasil Business, a resposta é sim, mas somente a médio prazo.

Para Pires, a tendência é que o dólar, apesar da queda recente, suba novamente. “Estamos perto das eleições presidenciais, e o dólar sempre sobe nesse momento. As eleições de 2022 terão muito risco político, e isso repercute no câmbio”, diz. “O valor deve aumentar ainda mais e o petróleo segue na trajetória de crescimento”.

Mas, para Feldmann, da FEA-USP, essa pode ser “a última alta do petróleo”. Isso porque, a longo prazo, a tendência é que cada vez mais nações deixem de lado o uso do óleo como combustível, com a migração para uma economia de baixo carbono, por meio da adoção de fontes renováveis de energia, como já vemos no movimento das fabricantes de automóveis, investindo cada vez mais em veículos elétricos.

“O petróleo já está entrando em sua fase final, porque é um compromisso dos principais governantes do mundo reduzir as emissões poluentes na atmosfera. O petróleo não vai morrer, ele vai continuar sendo necessário para outras coisas, como para a fabricação de plásticos. Mas isso vai demorar”, afirma.

Até lá, é esperar. Daqui para o ano que vem, com mais países se recuperando da pandemia, mais petróleo será necessário – o que vai aumentar a demanda, sem aumentar a oferta. “E essa recuperação precisa de combustível. A gasolina e o petróleo são os principais”, diz Feldmann.

Tamires Vitorio
Com informações da Agência Brasil e reportagem adicional de Matt Egan

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