Uma das maiores clientes e candidata a comprar ativos da estatal, empresa defende preços internacionais dos combustíveis Foto: Adriano Vizoni/FolhaPress

Cliente na compra de combustíveis e candidata à compra de ativos da Petrobras, a Cosan avalia que a decisão pela troca no comando da estatal, feita há quase um mês, não produziu ainda efeitos práticos sobre suas políticas, tanto de preços quanto de desinvestimentos.

A substituição de Roberto Castello Branco pelo general Joaquim Silva e Luna foi anunciada pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em meio à crescente insatisfação com a escalada dos preços dos combustíveis e gerou no mercado temor de intervenção do governo na empresa.

“A gente não viu nenhum movimento na prática que mudasse a política, o alinhamento ao preço internacional continua”, afirmou nesta terça (16) o presidente da Cosan, Luis Henrique Guimarães. “E a gente entende que a venda de certos ativos da Petrobras continua, até por conta dos acordos com o Cade [Conselho Administrativo de Defesa Econômica].”

Castello Branco permanece no comando da estatal até a posse de Silva e Luna, cuja indicação será apreciada pela assembleia de acionistas da empresa no dia 12 de abril. Apesar das críticas de Bolsonaro, a gestão atual promoveu novos reajustes nos preços da gasolina e do diesel após o anúncio da troca de comando.

Por meio da Raízen, distribuidora de combustíveis em que é sócia da Shell, a Cosan é uma das principais clientes das refinarias da Petrobras. Em outras frentes, negocia com a estatal a compra da empresa de distribuição de gás canalizado Gaspetro, e participa o processo de venda das refinarias da estatal.

As negociações para a Gaspetro são feitas pelo braço de gás natural do grupo, a Compass. As duas partes já entraram na fase de negociações exclusivas e esperam fechar o negócio ainda este ano, para levar a operação aos órgãos de defesa da concorrência.

Caso a operação seja concluída, a Compass agrega a seu portfóllio participações em 19 distribuidoras de gás canalizado no país. A empresa já controla a Comgás, maior concessionária brasileira deste segmento, que atua na região metropolitana de São Paulo.

Já as negociações por refinarias são feitas por meio da Raízen. Em para investidores nesta terça (16), a direção da Cosan disse que o objetivo é entrar com parceiros no negócio de refino, para compartilhar o elevado investimento e diluir riscos.

A Petrobras colocou à venda 8 de suas 13 refinarias, processo que enfrenta resistência de trabalhadores e da oposição, mas é respaldado por acordo com o Cade para reduzir a concentração no segmento de produção de combustíveis no país. Uma delas, na Bahia, está em fase de negociações avançadas com o fundo Mubadala, dos Emirados Árabes Unidos.

Em entrevista após o evento com investidores, Guimarães ponderou que o Brasil se beneficia dos altos preços do petróleo, já que é um exportador da commodity, mas defendeu a adoção de algum mecanismo que atenue o repasse das variações internacionais ao mercado interno.

“A gente deveria encontrar algum mecanismo que não interfira na Petrobras”, afirmou, argumentando que a manutenção do alinhamento internacional de preços nas refinarias é importante para atrair investimentos e garantir a importação de combustíveis para suprir o déficit de produção nacional.

“Temos que ter política de preços internacionais por que somos deficitários. Se não tiver esse preço, não vai ter combustíveis”, disse. “O desafio é como se equilibra isso.” Ele lembrou que há experiências internacionais com fundos de estabilização de preços e que o governo já vem estudando alternativas.

Guimarães disse que o mercado de combustíveis já vem sentindo impactos do aumento de medidas restritivas para enfrentar o pico de casos de Covid-19 no país, mas ainda em ritmo inferior à queda do início da pandemia, quando restrições mais severas foram tomadas em quase todo o país.

Os efeitos, por enquanto, se dão com mais intensidade nas vendas de gasolina e etanol. O mercado de diesel, diz a empresa, está sendo beneficiado pelo transporte da safra agrícola.

“A vacinação é a saída para que economia e saúde andem juntos. O mais importante agora é foco na vacina”, defendeu, dizendo que o grupo não tem planos de adquirir vacinas. “A gente não quer tumultuar o processo, porque vemos que há enorme procura e é melhor que o governo brasileiro lidere isso.”

Com negócios espalhados em diversos setores da economia, a Cosan vem passando por um processo de reestruturação organizacional e trabalha para lançar ações em bolsa das quatro grandes subsidiárias resultantes desse processo: Compass, Raízen, Rumo (de transportes) e Moove (de lubrificantes)

Em 2020, a holding planejava abrir o capital da Compass, mas desistiu após avaliação de que não era o melhor momento. Agora, passou a Raízen à frente na lista de prioridades, com expectativa de ir à bolsa ainda em 2021.

O lançamento de ações vai ajudar a financiar as aquisições e os pesados investimentos previstos pelas subsidiárias. Além de negociar a Gaspetro, por exemplo, a Compass inicia este ano obras de um terminal de importação de gás natural em São Paulo, com início de operações previsto para 2022.

O projeto é um primeiro passo para a redução da dependência da Petrobras, hoje praticamente a única fornecedora no mercado brasileiro. O gás, que é transportado em navios no estado líquido, será comprado da francesa Total. O próximo passo é a construção de um gasoduto ligando reservas do pré-sal ao litoral paulista, mas esse projeto ainda não tem data de conclusão.

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