Tanques de combustível da Raízen, joint venture da Cosan com a Shell, em Rondonópolis (Mato Grosso) (Raízen/Divulgação)

A eleição presidencial levou os olhos do mundo em direção aos Estados Unidos em novembro de 2020. Recheada de contextos que se relacionam com os mais diferentes interesses globais, a definição do nome de Joe Biden como o responsável a liderar a maior nação do planeta desperta atenção mundo afora.

E, para o Brasil, não poderia ser diferente. São muitos os temas relevantes para uma discussão bilateral, mas gostaria, neste espaço, de concentrar as análises na preservação ao meio ambiente e nas negociações comerciais de uma agenda bastante específica e que interessa muito aos dois países – mas não só a eles. O debate a respeito da postura enfática do atual governo americano na defesa dos interesses de seus produtores e a consequente aprovação pelo governo brasileiro, em setembro, de uma cota de isenção tarifária para a importação de 187,5 milhões de litros de etanol dos Estados Unidos são bons pontos de partida.

Os Estados Unidos respondem por cerca de 90% do etanol importado que chega aos portos brasileiros a cada ano. A decisão anunciada ainda antes da reta final da campanha americana e que se esgotou no meio de dezembro de 2020 desperta a expectativa de como o tema passará a ser tratado pelas partes interessadas daqui para frente. E o que se espera é exatamente isso: que se olhe para a frente. A solução está no futuro, e passa pelos compromissos de sustentabilidade e combate aos impactos provocados pelas mudanças climáticas. Olhar para o passado e antigos entraves já não faz sentido. O diálogo é a única plataforma.

A eleição de Joe Biden, que frequentemente mostra preocupação latente com o cumprimento de compromissos que preservem o meio ambiente, abre possibilidades importantes para que se reforce o diálogo de acordo entre os dois maiores produtores mundiais em busca de uma expansão do mercado internacional de biocombustíveis, uma tecnologia já consolidada e com resultados visíveis: o etanol proporciona uma redução de até 90% da emissão de GEE em relação à gasolina, estatística palpável quando se olha para o céu, por exemplo, de uma metrópole como São Paulo, com ar comparativamente menos poluído hoje em relação às últimas décadas.

Aos fatos: segundo a UNICA (União das Indústrias da Cana-de-Açúcar), de março de 2003 (data de lançamento da tecnologia dos carros flex) até dezembro de 2019, o consumo de etanol (anidro e hidratado) reduziu as emissões de GEE em 600 milhões de toneladas de CO2eq. Para atingir a mesma economia de CO2, seria preciso plantar mais de 4 bilhões de árvores nativas nos próximos 20 anos.

O biocombustível a partir da cana-de-açúcar que o Brasil, há mais de 40 anos, vem consolidando como uma alternativa renovável, sustentável e viável para atingir o objetivo de limpar a matriz energética nacional pode e deve ir além de nossas fronteiras. Há espaço para que o etanol, seja a partir da cana-de-açúcar seja a partir do milho – como acontece nos Estados Unidos -, torne-se plataforma global de descarbonização. Por um bem maior, os dois países podem convergir por um objetivo maior do que discussões pontuais envolvendo subsídios e cotas.

Os esforços realizados pelo governo brasileiro a favor do etanol como ponta de lança de uma matriz energética mais limpa são visíveis. Basta ver o primeiro ano bastante promissor da implementação do RenovaBio, programa com estrutura das mais sofisticadas que vai permitir maior fôlego de investimento para fazer do etanol solução global para a transição energética. Embora gargalos ainda existam: um exemplo disso é o fato de o Brasil ter somente três acordos de livre comércio em vigor, número cinco vezes menor do que um vizinho próximo do continente sul-americano – o Chile, com 16 resoluções.

Há a necessidade premente de aprimorar o panorama de discussões internacionais e, neste cenário, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) tem exercido papel fundamental ao apresentar argumentos sólidos em busca de uma solução que fortaleça o Brasil no tabuleiro das grandes discussões comerciais. Um deles é o pleito pela publicação do decreto presidencial para tornar mais célere a internalização de atos internacionais nas fases relativas ao Poder Executivo; o outro é a necessidade de alteração do decreto 9.191/17, que oferecerá mais agilidade e menos burocracia na gestão de atos e acordos internacionais. Hoje, por exemplo, uma tramitação desse tipo de acordo leva, em média, 445 dias.

Um tempo que o mundo não tem para esperar e que favorece apenas a prevalência de interesses unilaterais, o que diminui de maneira significativa o impacto dos esforços em busca de soluções que beneficiem demandas e interesses coletivos e globais. A hora, portanto, é de diálogo, de colocar à mesa as oportunidades para que duas potências tecnológicas dos biocombustíveis enfrentem as mudanças climáticas jogando pelo mesmo time.

 *Ricardo Mussa é CEO da Raízen

Fonte: EXAME

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