Imagem: Marcelo D. Sants/Framephoto/Estadão Conteúdo

SÃO PAULO – Anos já se passaram do cenário complicado em que a Petrobras (PETR3PETR4) não tinha controle sobre o preço que cobrava para os combustíveis, mas o fantasma da interferência política na companhia parece estar sempre rondando seus negócios.

Apesar da política de preços estabelecida pela estatal em 2017, em que ela repassa para as refinarias o valor internacional do petróleo, basta um momento de estresse, como a greve dos caminhoneiros ou o mais recente crash do preço da commodity, para que investidores temam uma possível interferência do governo.

O início da pandemia do novo coronavírus afetou fortemente a demanda pelo petróleo, com o tipo brent registrando queda de 66% em seu pior trimestre na história. E isso puxou a Petrobras junto, com as ações preferenciais da estatal desabando 53% entre janeiro e março deste ano.

Contudo, o barril do petróleo já subiu 82,77% desde sua mínima de US$ 19,33 atingida em 21 de abril. Apenas no mês de maio, o brent teve forte alta de 39,81%, o melhor mês desde 1999.

E conforme começa o movimento de recuperação do petróleo, a tendência é que a petrolífera brasileira acompanhe elevando o preço dos combustíveis. Isso trás de volta os temores de analistas e investidores sobre o risco político, ainda mais com este aumento ocorrendo em meio a pandemia.

Quando o petróleo atingiu preços negativos em abril, criando um caos nos mercados, a Petrobras decidiu esperar para avaliar qual movimento faria sobre os combustíveis. Passadas algumas semanas, a empresa começou a fazer seus ajustes, considerando não só a commodity, mas também o dólar, que disparou no Brasil.

Apenas em maio, a companhia brasileira já elevou a gasolina quatro vezes, a mais recente na quinta-feira, fazendo o combustível acumular ganhos de 45% até agora. Para o diesel, foram duas elevações de preços, uma de 8% e outra de 7%.

Apesar deste movimento, segundo dados do Bradesco BBI, os preços da gasolina ainda têm um desconto de 7,9% em relação à paridade internacional, enquanto o diesel mais próximo do nível de referência, com desconto de 1,6%.

Apenas no dia 6 de maio, a estatal anunciou um aumento significativo de 12% no preço da gasolina nas refinarias. E diante disso, o presidente Jair Bolsonaro disse que iria questionar a companhia sobre a decisão, pois, segundo ele, não houve um aumento do preço internacional do petróleo que justificaria este movimento.

Foi o suficiente para que o debate do risco político tivesse início novamente, o que levou Bolsonaro a afirmar que não estava interferindo na Petrobras, mas que tinha o “direito” de entender a decisão.

Segundo os analistas do UBS, apesar do presidente negar interferência, “quaisquer comentários governamentais sobre os movimentos de preços da Petrobras podem aumentar a percepção de risco dos investidores”.

A equipe do banco suíço destaca que a Petrobras conseguiu manter um alto prêmio mesmo no cenário de queda do preço do petróleo tipo Brent, e agora que a tendência começa a ser de recuperação da commodity, a estatal eleva o valor dos combustíveis para manter sua política de preços.

E três fatores explicam este movimento da companhia: 1) a disparada do dólar; 2) a recuperação de preços internacionais de combustíveis; e 3) o fato da Petrobras operar com spreads de crack (termo para negociação de futuros pelo diferencial entre o preço do petróleo e os produtos de petróleo extraídos dele) negativos, o que leva a companhia a ter uma forte necessidade de repassar os aumentos, a fim de manter um prêmio em relação aos produtos importados, cumprindo assim sua política de preços de seguir movimentos internacionais.

Já os analistas do Bank of America ressaltam que a direção da Petrobras irá trabalhar para evitar qualquer interferência, mas que a pressão política sobre um limite de preços de combustíveis segue como um risco. “Isso, combinado com os efeitos de um ambiente de preços mais baixos do petróleo, pode machucar os esforços de reduzir os níveis da dívida nos próximos 12 meses”, avaliam.

Eles afirmam que, à medida que os preços do petróleo subirem nos próximos trimestres e começarem a voltar para níveis mais normais, será fundamental que a petrolífera seja capaz de mover seus preços de acordo com os movimentos internacionais, a fim de maximizar seus ganhos e fluxo de caixa.

“Quaisquer limites aos preços da gasolina/diesel podem limitar o potencial de melhoria nos ganhos e podem ser negativos para as percepções dos investidores, o que pode prejudicar a avaliação das ações”, explicam.

Segundo o BofA, quando as pressões econômicas aumentam, com a combinação de baixo desempenho da economia, com o real desvalorizado e um potencial de aumento do petróleo, aumentam os riscos de intervenção do governo quando o assunto é acompanhar os preços internacionais.

Para os analistas, essa mistura de fatores negativos pode tornar muito desafiador aumentar os preços da gasolina e do diesel no mercado local.

“Se os preços forem limitados, isso limitará qualquer recuperação de ganhos com o aumento dos preços do petróleo. Embora isso possa ser apenas por um período de meses ou trimestres, é provável que o risco limite as ações”, avaliam eles, ressaltando ainda que isso levaria os investidores, nacionais e globais, a limitarem a exposição à Petrobras até que os riscos reduzam.

Enquanto isso, Adriano Pires, sócio-fundador e diretor do Centro Brasileiro de Infra Estrutura (CBIE), aponta outros fatores que podem afetar a Petrobras que não são uma interferência direta do governo.

Segundo ele, que vê a crise do petróleo como uma das três piores da história, a pandemia criou uma certa inelasticidade nos preços dos combustíveis, principalmente na gasolina. Isso porque a população que tiver a possibilidade tenderá a preferir usar o carro quando começar a reabertura dos negócios, em detrimento ao transporte público. “Neste caso, não faz muita diferença a gasolina custar R$ 3 ou R$ 5”, afirma.

Pires vê ainda um risco de aumento do discurso nacionalista após a pandemia passar. Se isso acontecer, a estatal poderá ter dificuldades em realizar seus desinvestimentos, como a privatização de algumas refinarias.

Além disso, ele destaca que poderíamos ver uma política de reserva de mercado, em que o governo estabelece barreiras artificiais, como instituição de impostos, para favorecer o mercado nacional. Neste cenário, os custos da companhia poderiam aumentar, já que ela poderia ser forçada a comprar, por exemplo, itens para construção de plataformas mais caros no Brasil em vez de importar.

Fantasma do passado

A equipe do UBS lembra do impacto que a Petrobras sofreu entre os governos Lula e DIlma, quando o governo controlava os preços dos combustíveis. Naquela época, a alavancagem da estatal saltou, chegando a 4,77 vezes em 2014 e 5,31 vezes em 2015.

Mas não é preciso ir tão longe. Os analistas do banco ainda destacam que esta confusão em maio não foi a primeira vez no atual governo em que houve declarações do presidente que afetaram a Petrobras.

Em 2019, a companhia suspendeu um aumento de 5,74% no diesel após Bolsonaro afirmar que questionou a empresa e sugeriu a revogação desta alta dos preços. Na ocasião, os papéis da empresa caíram cerca de 8%, levando o governo a se pronunciar dizendo que não iria interferir na política de preços da estatal.

O BofA reforça também que se houver alguma interferência do governo, a petrolífera deve sofrer um forte efeito negativo, como aconteceu entre 2011 e 2014.

“Nesse período, houve importantes quedas no preço das ações e um aumento na dívida, que foi em grande parte devido aos descontos sustentados dos preços da gasolina e do diesel, que reduziram o fluxo de caixa da empresa”, explicam.

“Existem diferenças claras entre o ambiente atual e 2011-2014, mas isso ilustra o potencial de risco”, completa o BofA.

Fonte: InfoMoney

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