O campo de petróleo e gás natural mais famoso do planeta – e a espinha dorsal do sistema mundial de formação de preços do petróleo cru – secou. Em breve, o padrão Brent não terá mais petróleo Brent.

A Royal Dutch Shell deve fechar no ano que vem os últimos poços de petróleo Brent que ainda tem em operação, localizados na Bacia de East Shetland, no Mar do Norte, 185 quilômetros ao norte das Ilhas Shetland, ao largo da Escócia. O fechamento representa o final de uma era, com o setor petroleiro mudando seu foco para campos de petróleo menores, próximos de infraestrutura existente.

Muitas companhias estão fechando plataformas montadas em regiões nas quais grandes campos de petróleo foram descobertos na década de 1970, mas o Brent se destaca como o primeiro e o mais significativo desses achados. O campo gerou bilhões de dólares em receita para Shell, para sua parceira no campo Brent, a Exxon Mobil, e para o governo do Reino Unido.

Royal Dutch Shell deve fechar os últimos poço de petróleo Brent em 2020 – Yves Herman/Reuters

No final da década de 1980, o petróleo cru do campo Brent se tornou a referência por meio da qual a maior parte dos preços mundiais de petróleo são fixados, e ele ainda é empregado como referência no mercado futuro da Bolsa Intercontinental, que movimenta trilhões de dólares.

“O papel que o campo Brent desempenhou fez dele um pilar desse setor por mais de 40 anos”, disse Steve Phimister, vice-presidente de exploração e diretor de operações britânicas da Shell.

O padrão Brent manterá seu nome e agora representa uma mistura de petróleos crus do Mar do Norte, e no futuro existe o potencial de que venha a incluir petróleo de outros locais.

A Shell descobriu o campo em 1971 e o nome que ele recebeu era uma homenagem ao ganso “brent”, para acompanhar o tema de aves marinhas que a companhia empregava para batizar os campos descobertos nessa época. Desenvolvê-lo foi uma empreitada imensa e dispendiosa. Com altura equivalente à da Torre Eiffel, a plataforma Brent Charlie, que é a única ainda em operação entre as quatro plataformas originais do campo Brent, foi construída para suportar condições que estavam entre as mais hostis do planeta.

As ondas do Mar do Norte atingem alturas de até 12 metros, e rajadas de vento com velocidade de até 160 km/h fazem da região um lugar para “indivíduos rústicos”, disse Alan Lawrie, natural de Aberdeen, Escócia, que começou a trabalhar para a Shell em 1984, aos 16 anos de idade. Agora administrador da plataforma Brent Charlie, Lowrie, 51, disse que o Brent era o campo em que todo mundo queria trabalhar.

Como todos os cerca de 180 operários que trabalham na plataforma, Lawrie alterna períodos de duas semanas na plataforma, para a qual os trabalhadores são transportados de helicóptero, e pausas de repouso de duas semanas. Quando está na plataforma, seus turnos de trabalho são de 12 horas ao dia. A plataforma Charlie tem capacidade para alojar até 192 pessoas, como uma pequena aldeia em uma ilha no meio do nada. Tem restaurantes, salas de jogos e uma academia de ginástica, onde Lawrie passa muitos de suas horas de folga, em uma máquina de remar.

Uma de suas lembranças mais apreciadas é a de ter comemorado seu 21º aniversário na plataforma Brent Charlie, com os colegas de trabalho, que zoaram com ele lhe dando de presente um remo miniaturizado com 45 centímetros de comprimento que um deles entalhou em madeira em seus períodos de folga.

A corrida do petróleo no Mar do Norte foi ajudada pela alta nos preços da commodity causados pelo embargo de petróleo árabe do começo dos anos 70, que causou alta de 400% nos preços do petróleo cru. O petróleo sofreu novo choque de preços com a revolução iraniana de 1979, que causou escassez do produto.

“Nós importávamos todo o petróleo que consumíamos e a principal ênfase, para o governo do Reino Unido e para as companhias petroleiras, era começar a extrair petróleo da região o mais rápido possível, para ajudar no balanço nacional de pagamentos, que estava sofrendo muito por conta do pesado custo do petróleo importado”, disse Alex Kemp, professor de economia petroleira na escola de administração de empresas da Universidade de Aberdeen.

O projeto era arriscado e enfrentou pesados excedentes de custos, porque o Mar do Norte era uma região de fronteira e o projeto teve de recorrer a novas tecnologias a fim de ir mais fundo no oceano do que em qualquer momento do passado, e escavar mais de 6,5 quilómetros abaixo do leito do mar.

Os derivados de petróleo do Mar do Norte estão em declínio desde a virada do século, em parte porque sua extração era muito cara para competir com o petróleo de outras regiões. Em seu pico, em 1982, o campo Brent produzia mais de 500 mil barris diários, o suficiente para atender às necessidades de energia de metade dos domicílios britânicos, na época. A região britânica do Mar do Norte produziu cerca de 1,8 milhão de barris de petróleo e gás natural ao dia, no ano passado, menos de metade do pico de produção atingido em 1999.

À medida que a produção do campo Brent caía, outros petróleos foram adicionados ao que se tornou a cesta de petróleos crus do Mar do Norte usada para definir o preço Brent. Mas a produção das variedades de petróleos usadas para determinar o preço do Brent deve cair pela metade – para 500 mil barris diários – até 2025, devido à falta de investimentos e ao encerramento das atividades em alguns campos.

O principal concorrente do padrão Brent, o padrão West Texas Intermediate (WTI), usado nos Estados Unidos, representa volume muito maior de petróleo cru. Cerca de quatro milhões de barris de petróleo cru americano ao dia, ou cerca de 4% da produção mundial, atendem aos critérios de qualidade requeridos para comercialização nos mercados futuros como WTI.

Alguns pesquisadores, entre os quais o Instituto de Pesquisa de Emergia de Oxford, acreditam que o padrão Brent no futuro deva vir a incluir petróleo cru americano para determinar o preço de referência.

Enquanto isso, a Shell está se preparando para desativar a plataforma Brent Charlie em algum momento do ano que vem. “A remoção das grandes [plataformas] traz lágrimas aos olhos”, disse Lawrie. “Mas é parte natural do ciclo de vida do setor em que trabalhamos”.

The Wall Street Journal, tradução de Paulo Migliacci

Fonte: Folha de São Paulo

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