Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Há mais de 15 anos, o Brasil passou a ser considerado autossuficiente em petróleo, o que significa dizer que a produção do recurso supera o consumo. Por dia, o país fabrica 3 milhões de barris, mas compra do exterior 170 mil barris por dia em derivados do petróleo. Por que ainda importamos?

A resposta está relacionada às características do produto extraído no Brasil, à estrutura de refinarias no país e outros aspectos técnicos, segundo especialistas ouvidos por UOL. Veja as explicações abaixo.

Petróleo brasileiro é difícil de refinar

Boa parte das refinarias brasileiras foi construída na década de 1970, quando o petróleo era importado. Porém, o produto importado era do tipo leve. Com a descoberta e a extração de petróleo na Bacia de Campos, também nessa época, as refinarias precisaram passar por um processo de adaptação para refinar o produto brasileiro, mais pesado.

Com o pré-sal (extração em águas profundas), o petróleo leve também começou a ser obtido no Brasil, com maior valor agregado e com características diferentes. Sem maquinário específico nas refinarias para esse tipo de combustível, ele passou a ser exportado, segundo o especialista em regulação de petróleo e biocombustível da ANP (Agência Nacional do Petróleo), Krongnon Regueira. Diariamente, mais de 1 milhão de barris são enviados para o exterior.

“Ao produzir petróleo leve e colocá-lo em uma refinaria que foi projetada para processar petróleo pesado, você está desperdiçando recursos, não otimizando. Eu sempre gosto de dar esse exemplo. É como pegar um vinho nobre e transformar em sagu [sobremesa com mandioca e vinho]. Você estaria desperdiçando, porque o sagu deveria ser feito com vinho barato”, afirma.

Em busca da mistura perfeita de derivados de petróleo

O país acaba importando derivados do petróleo para compor o blend, como é chamada a mistura do petróleo brasileiro com outros tipos e que possibilita o refino, explica a professora e assessora estratégica da FGV Energia, Fernanda Delgado.

“A gente importa quantidade pequena do mercado internacional porque existem qualidades físico-químicos diferentes de petróleo. Importamos para compor o blend, uma mistura, que atende ao nosso parque de refino.”

A importação de componentes do petróleo não ocorre apenas no Brasil, declara a diretora do IBP (Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás), Valéria Lima. “Mesmo outros países que são exportadores também importam alguns tipos para compor melhor a mistura ao parque de refino, como os Estados Unidos e a Arábia Saudita.”

Importação e dólar influenciam preços

A importação de derivados de petróleo também influencia no preço dos combustíveis. Para atender a demanda por diesel, por exemplo, é preciso trazer importar.

Mas não só isso afeta o valor cobrado nas bombas dos postos. O preço do barril do petróleo e a cotação do dólar são os dois principais itens que fazem oscilar os valores.

O preço do barril está próximo aos valores de dezembro de 2019, antes do início da pandemia, em dois mercados diferentes de petróleo (o norte-americano e o britânico).

Por outro lado, o dólar não seguiu a mesma tendência. Em dezembro de 2019 estava na casa dos R$ 4 e nesta semana passou de R$ 5,65. Porém, o barril é negociado em dólar, o que impacta os preços.

Controle artificial dos preços

Para conter a inflação e disparada de valores nas bombas, outros governos estabeleceram controle artificial de preços no petróleo. Foi o caso do governo de Dilma Rousseff (PT), lembra o técnico da ANP.

“Isso causou um rombo nas contas da Petrobras. O governo de Michel Temer acabou com controle de preços, e hoje o petróleo tem valor livre, alinhado ao mercado internacional. Quando sobe lá fora, sobe aqui também”, afirma Regueira.

Como a Petrobras é uma empresa de capital aberto, o controle artificial de preços acaba espantando investidores e faz com que a empresa perca valor de mercado, entende o professor do Insper Alexandre Chaia. “A Petrobras tem dinheiro de investidores, inclusive de outros países. Isso [controle de preços] é uma coisa que não pode acontecer, uma intervenção política.”

Refinarias são mal distribuídas

As refinarias existentes no país estão concentradas na porção leste do país (para o lado do litoral) -das 16 unidades da Petrobras, não há nenhuma no Centro-Oeste e apenas uma em Manaus. Em alguns lugares do país, importar combustível pode ser mais vantajoso, mesmo com o dólar alto.

“No Nordeste e no Norte, é mais barato importar de outros países próximos do que produzir em uma refinaria nacional”, exemplifica o economista e professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) Edmar de Almeida.

Mas ter uma refinaria próxima não significa preço baixo. Quem mora no Acre recebe combustíveis vindos da refinaria em Manaus. Porém, para compor a gasolina é necessário adicionar 27% de etanol, produzido em São Paulo.

Nessa conta, acaba entrando o preço do frete do combustível do sudeste até o norte do país, que acaba refletindo no valor cobrado no posto de combustíveis.

Não há qualquer dificuldade para refino, diz Petrobras

Em nota, a Petrobras informou que atualmente 94% do petróleo refinado nas refinarias da empresa tem origem nacional. Veja a nota na íntegra:

“Com relação a matéria ‘Por que o Brasil importa combustíveis se é autossuficiente em petróleo?’, publicado neste sábado (17/4) pelo portal UOL, a Petrobras esclarece que atualmente 94% do petróleo refinado nas refinarias da Petrobras tem origem nacional. Cabe destacar que a produção do pré-sal já corresponde a 68% do petróleo produzido no país. Não há qualquer dificuldade para refino do petróleo do pré-sal no Brasil.

Vale destacar ainda que processar mais petróleo não significa necessariamente obter o melhor resultado econômico. A utilização das nossas refinarias depende, dentre outros fatores, das cotações de preços de petróleo e derivados, da disponibilidade das unidades de processo e do volume de combustíveis a ser entregue aos nossos clientes. A Petrobras busca sempre o cenário de utilização de seus ativos que garanta a rentabilidade mais adequada para a companhia.

A companhia mantém investimentos no segmento de Refino, com valores que chegam a US$ 3,7 bilhões, de acordo com o Plano Estratégico 2021-2025. E, dentro dos seus planos nesta área, anunciou recentemente a intenção de disponibilizar ao mercado brasileiro uma nova geração de combustíveis. Batizado de Biorefino 2030, o projeto prevê a produção comercial de combustíveis mais modernos e sustentáveis, como o diesel renovável e o bioquerosene de aviação.

Mesmo após a venda das oito refinarias, a Petrobras permanecerá com aproximadamente metade da capacidade de refino do país e investirá em tecnologias para tornar suas unidades duplamente resilientes, tanto do ponto de vista ambiental quanto econômico.”

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