(Imagem: Agência Brasil/Tomaz Silva)

A surpresa altista para a inflação de fevereiro foi “de longe” nos preços de gasolina e etanol, afirma João Fernandes, economista e sócio da Quantitas Asset. A casa projetava alta de 6,3% na gasolina, mas veio 7,11%. No caso do etanol, a expectativa da gestora era de avanço de 4,5%, enquanto o IBGE observou salto de 8,06%
“Há uma defasagem entre o que os monitores apontavam, significa um repasse maior para os postos na coleta do IBGE”, diz Fernandes. Pela manhã, o instituto informou que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu 0,86% em fevereiro, acima da expectativa mediana colhida pelo Valor Data de 0,70% e da projeção de 0,72% da Quantitas.

A pressão na gasolina está vinculada aos “reajustes fortíssimos” que a Petrobras tem dado, influenciada pela cotação internacional do petróleo e pela alta do dólar, segundo Fernandes. “Essa situação vai se agravar ainda mais, porque esse último aumento ainda não chegou nos postos”, diz ele, esperando mais 10,5% para a gasolina no IPCA de março. “Em dois meses, será uma alta próxima de 18%”, reforça.
O cenário é parecido para o etanol. Além de manter certa paridade com os preços da gasolina, houve problemas no plantio da cana-de-açúcar, atrasando a colheita e gerando um choque de preços nas usinas, explica Fernandes. Após subir 8% em fevereiro, o etanol deve avançar mais 14% em março, projeta a Quantitas.

Diante da pressão de fevereiro, a gestora elevou sua projeção para o IPCA em 2021 de 4,9% para 5,1%.

Além dos combustíveis, Fernandes destaca que no mês passado houve aumentos em perfumes, artigos de maquiagem e produtos para a pele, itens que, segundo ele, também têm relação forte com o dólar, além de apresentaram uma volatilidade grande já conhecida na pesquisa do IBGE.

Na parte de bens duráveis (automóveis, mobiliário, eletrônicos, eletrodomésticos etc), Fernandes diz que as altas de fevereiro vieram em linha com o esperado, mas, para março, a pressão deve ser ainda maior, já que problemas de oferta estão se aprofundando. “Estamos vendo no noticiário empresas voltando a falar de problemas de produção e estoque. Além disso, fábricas em Manaus foram prejudicadas pela dinâmica da pandemia na capital, que passou por fortes restrições de mobilidade”, lembra ele. “Março, principalmente, e também abril são dois meses em que esses itens devem voltar a ter forte aceleração”, diz, citando também os entraves e repasses com o dólar mais alto.

A Quantitas projeta alta de 0,95% para o IPCA de março e de 0,49% para abril.
A inflação dos serviços, por sua vez, embora tenha surpreendido um pouco para cima – subiu 0,55% em fevereiro, ante 0,52% na projeção da Quantitas -, continua em nível baixo, avalia Fernandes. “Eles tiveram uma aceleração forte no fim do ano passado, no contexto de aumento da mobilidade, puxando núcleos para cima. Mas, em janeiro, a volta das restrições já começou a pegar e, ao contrário dos bens, os serviços dependem das pessoas estarem nas ruas consumindo. Acho que março ainda vai ser um mês muito difícil nesse aspecto. Enquanto a vacinação não acelerar, os serviços tendem a continuar com comportamento ameno”, diz ele.

Fonte: Valor Investe

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