Muitas empresas apostam em carros a eletricidade contra o aquecimento global, mas algumas petroleiras esperam que o óleo de cozinha faça o mesmo (Jim Wilson/The New York Times)

Muitas empresas estão apostando que os carros e caminhões movidos a hidrogênio e eletricidade terão um papel crítico na luta contra as mudanças climáticas. Mas algumas companhias petrolíferas esperam que o óleo de restaurante e o lixo gorduroso do matadouro façam o mesmo.

As empresas que refinam o petróleo bruto e o transformam em combustível estão cada vez mais usando esses restos para fazer uma versão do diesel renovável, que pode reduzir significativamente as emissões de gases de efeito estufa de caminhões, ônibus e equipamentos industriais, sem exigir que famílias e empresas invistam em novos veículos caros e equipamentos de fábrica. A Phillips 66, a Marathon, a HollyFrontier e várias outras refinarias estão gastando cerca de US$ 2 bilhões para se reequipar e produzir o combustível nos próximos quatro anos.

O diesel renovável existe há anos, e sua produção, embora pequena em comparação com sua contraparte de combustíveis fósseis, tem crescido constantemente, porque o governo dos EUA e a Califórnia oferecem incentivos para que as empresas o produzam e o vendam. Esse apoio tornou o combustível ainda mais atraente para as refinarias de petróleo durante a pandemia, quando a demanda por diesel regular, gasolina e combustível de jato caiu, porque as pessoas dirigem e viajam menos.

A produção de diesel renovável cresceu cerca de sete por cento em 2020. “O diesel renovável é uma pepita de ouro. Num momento em que muitas empresas passam por dificuldades, temos essa enorme oportunidade com aquelas que anunciam planos ambiciosos para desenvolver a capacidade de diesel renovável”, disse Corey Lavinsky, diretor global de biocombustíveis da S&P Global Platts, firma de pesquisa energética.

Alguns chefes de refinarias de petróleo acreditam que o diesel renovável poderia ajudá-las a permanecer lucrativas à medida que os governos buscam reduzir significativamente o uso de combustíveis fósseis para enfrentar as mudanças climáticas – um processo que já está bem encaminhado na Europa e que pode se acelerar nos Estados Unidos durante o governo Biden.

O diesel renovável é atraente por várias razões. Pode ser usado em motores a diesel já existentes sem ter de ser misturado com o diesel normal – sua maior vantagem sobre o biodiesel e o etanol, que também são feitos de material orgânico, mas que geralmente não podem ser usados sem a mistura com produtos petrolíferos. O diesel renovável, como o biodiesel, é produzido a partir de resíduos de produtos agrícolas e gorduras animais, mas é processado de forma diferente para que se torne quimicamente idêntico ao diesel convencional de petróleo.

As pessoas que compram diesel podem nem saber que estão usando o produto renovável porque as bombas trabalham com o original, o diesel à base de óleo ou uma combinação dos dois, sem normalmente exibir rótulos especiais.

A queima de diesel renovável emite entre 50 por cento e 80 por cento menos gases de efeito estufa que o diesel convencional, dependendo das matérias-primas usadas em sua produção. E as refinarias de petróleo podem fazer diesel renovável com algumas mudanças.

O diesel renovável surge em um momento de forte estresse para a indústria de petróleo e gás, com refinarias fechando usinas em toda a Europa e na América do Norte. A Royal Dutch Shell anunciou recentemente que estava fechando sua refinaria em Convent, na Louisiana, depois de não ter encontrado um comprador, e a Marathon Petroleum planeja fechar duas fábricas na Califórnia e no Novo México.

O diesel renovável já desempenha um grande papel para algumas empresas. A Valero, a maior refinaria independente dos EUA, informou que sua receita operacional com diesel renovável triplicou no último ano, para US$ 184 milhões no terceiro trimestre. Isso é um grande ganho, dado que a empresa reportou uma perda global de US$ 464 milhões no trimestre.

A Valero comprometeu 40 por cento de seus gastos em projetos de crescimento ao longo de 2020 e 2021 com o diesel renovável, que produz por meio de uma joint venture chamada Diamond Green Diesel, na Louisiana. A empresa também está considerando a construção de uma usina no Texas.

Apesar desse otimismo, alguns executivos do petróleo temem que o diesel renovável possa ter problemas nos próximos anos.

A CVR Energy, que opera duas refinarias no Centro-Oeste dos EUA, está investindo em uma ou potencialmente duas instalações de diesel renovável para ajudar a atender às regulamentações dos EUA.

Mas seu executivo-chefe, David Lamp, disse que o papel do governo dos EUA em subsidiar o diesel renovável o transformou em um negócio inerentemente instável. Incentivos em nível nacional e estadual poderiam encorajar a indústria a produzir mais combustível do que o necessário. Por outro lado, ele teme que o Congresso dos EUA ou a Califórnia possam abruptamente eliminar os incentivos. “Se um desses subsídios for retirado, não haverá ganhos. Com a situação de déficit do governo federal, algumas dessas coisas terão de ser analisadas”, afirmou Lamp.

Outra preocupação é que, à medida que mais refinarias entram no negócio, pode ficar mais difícil encontrar óleo de cozinha e gordura animal em quantidade suficiente. “O limite real do diesel renovável é a disponibilidade de matéria-prima”, observou Kurt Barrow, vice-presidente da IHS Markit, empresa de pesquisa e consultoria em energia.

Mas Jeremy Baines, presidente da Neste U.S., unidade americana de uma empresa finlandesa de energia, está mais otimista. Ele espera que grandes empresas como Amazon, Walmart e UPS aumentem o uso do combustível na tentativa de reduzir as emissões de carbono de suas frotas de caminhões. “Mesmo que você queira ser cem por cento elétrico, o diesel renovável é a única coisa que dá para implantar e escalonar hoje”, comentou.

Fonte: EXAME

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