Imagem: Marcelo D. Sants/Framephoto/Estadão Conteúdo

A saída definitiva da Petrobras do capital da BR poderá render à estatal R$ 9,2 bilhões, com base no atual valor de mercado da distribuidora. Com o atraso no cronograma da venda das refinarias, em meio à pandemia da covid-19, a oferta dos 37,5% ainda detidos pela petroleira na BR desponta como o principal trunfo do programa de desinvestimentos da petroleira para 2020. Já para a distribuidora, segundo analistas, a operação pode significar mais liquidez aos papéis na bolsa. A expectativa é que o capital se mantenha pulverizado.

Do ponto de vista operacional, o Valor apurou que as diretrizes do plano estratégico estão mantidas, bem como os contratos entre Petrobras e BR para fornecimento de combustíveis e licenciamento da marca da rede de postos.

A oferta subsequente (“follow-on”) foi aprovada na quarta-feira pelo conselho da Petrobras. A venda das ações da BR ainda não tem uma data definida, mas a expectativa é que a operação ocorra entre a segunda quinzena de outubro e início de novembro, se as condições de mercado forem favoráveis, segundo um executivo.

A estatal já tem o grupo de bancos contratado para a operação: Morgan Stanley, Itaú BBA, Bank of America, Goldman Sachs, J.P. Morgan, Citi e XP devem coordenar a oferta, segundo duas fontes. A petroleira havia iniciado as conversas com os bancos antes da pandemia, com a intenção de fazer o “follow-on” no primeiro trimestre. Com a virada de mercado, a estatal alongou o prazo e adiou a discussão do tema no conselho. “Pode haver ajuste para reduzir ou incluir um ou outro banco, mas a composição principal é essa”, disse uma fonte.

Petrobras e BR vão manter contratos no combustível e no licenciamento da marca da rede de postos

A saída da BR é, com folga, o desinvestimento mais importante da Petrobras em 2020. Até o fim de julho, US$ 997 milhões haviam entrado no caixa da estatal, oriundos da venda de ativos. O montante a ser levantado com a saída da BR, portanto, pode mais que dobrar a arrecadação com desinvestimentos no ano e contribuir para que a estatal retome a trajetória de redução da dívida, interrompida durante o choque do petróleo. A dívida bruta da companhia subiu de US$ 87 bilhões ao fim de 2019 para US$ 91 bilhões em junho.

A oferta das ações da BR era esperada para 2020. Em meio à pandemia, o presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, afirmou, em julho, na “Live do Valor ”, que, diante das turbulências na bolsa, a estatal preferiu segurar as operação e esperar um momento melhor. Ofertas recentes, como o “follow-on” da Lojas Americanas (R$ 7,9 bilhões) e do BNDES na Vale (R$ 8,1 bilhões), desde então, sinalizam que o cenário de hostilidade do mercado mudou.

Uma fonte da Petrobras disse ao Valor que a oferta das ações da BR, pelo volume que movimenta, pode “furar fila” nas prioridades dos bancos neste segundo semestre.

“Existe demanda, a BR é atrativa. Olhando para o ambiente de juros baixos, dólar estressado e inflação inerte, já tive mais dúvidas quanto à demanda. Esse movimento da Petrobras pega carona, de certa forma, nesse frenesi de ofertas recentes”, afirmou o analista da Ativa Investimentos, Ilan Arbetman.

A saída da Petrobras da BR vem sendo desenhada pelo menos desde 2017, quando a petroleira fez a abertura de capital da distribuidora e levantou R$ 5 bilhões, ao vender 28,75% do ativo. Em julho de 2019, a estatal deu mais um passo, ao levantar mais R$ 8,5 bilhões, com a alienação de mais 33,75%. Os valores crescentes de arrecadação acompanham, em parte, a valorização das ações da BR após a abertura de seu capital – movimento interrompido este ano.

Com o aval do conselho, a Petrobras formalizou o que era até então uma indicação de que venderia todas as suas ações na BR. Segundo um executivo que acompanha a operação, a saída da Petrobras zera qualquer risco de ingerência futura da estatal na distribuidora. A fonte acredita que isso possa atrair novos investidores ou estimular atuais acionistas a aumentarem suas respectivas fatias na BR, cujo capital é extremamente pulverizado nas mãos de acionistas como JGP, Opportunity, BlackRock, Capital Investimentos, Bradesco Asset, Itaú Asset e Fidelity. Nenhum deles possui 5% da empresa. “O mais natural é que continue a haver uma grande pulverização na BR. Não é simples, numa operação desse tipo, um investidor único comprar todas as ações”, disse.

Para Arbetman, a saída da Petrobras traz perspectivas de potencial ganho para as ações da distribuidora, embora, ontem, as ON tenham caído 2,8%. “Estamos falando de uma fatia de 37,5% que vai para o mercado. Isso traz liquidez, o papel da BR deve ter um giro maior, isso cria um cenário para que tenha uma dinâmica melhor de preços no futuro”, afirma.

Sobre a gestão, a BR não era mais controlada pela Petrobras. A expectativa é que a saída da estatal, portanto, não traga mudanças estruturais. O atual conselho da distribuidora tem mais um ano de mandato – embora qualquer acionista com mais de 5% possa propor mudanças. Já o contrato de licenciamento da marca Petrobras vai até 2029 – prorrogável – e os preços do contrato de suprimento com a estatal são os mesmos para todas as distribuidoras, sendo a petroleira acionista ou não da BR.

O Valor apurou também que não há previsão de mudanças no estatuto e que a BR pretende seguir com o seu plano estratégico, focando tornar a rentabilidade mais próxima da dos concorrentes (Ipiranga e Raízen). Comprar refinarias também segue fora do plano.

“Não acredito em mudanças na condução da empresa, a não ser que um grande investidor amplie muito sua fatia na BR, para 15% a 20%, por exemplo, a ponto de ter uma influência grande na indicação de um novo comando”, comenta um analista de um importante banco de investimentos, sob a condição de anonimato.

Quem investir na BR encontrará uma empresa mais enxuta. Desde a privatização, a empresa, por exemplo, cortou de 144 para 57 o número de transportadoras contratadas, com redução potencial de custos estimada em R$ 155 milhões/ano. A companhia também implementou programas de desligamento e espera fechar o ano com 3,7 mil empregados, entre próprios e terceiros, o que representa redução de 32% em relação aos números de 2019 – o que deve trazer economia de R$ 650 milhões/ano a partir de 2021.

A distribuidora também tem buscado diversificar fontes de suprimento e alavancar a conveniência por meio de parcerias. A pandemia, porém, impôs uma nova realidade de mercado. “O principal desafio da BR vai ser entregar margens melhores num ambiente de volumes de vendas menores por um tempo. O negócio de aviação, onde as margens são mais altas, vai demorar para retomar. E a BR não vai comprar refinarias e pode ter de competir com concorrentes integrados no futuro”, avaliou.

Fonte: Valor Econômico

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