Seca amplia demanda por energia, mas quebra da safra de cana pode reduzir oferta

Imagem: adobestock.com

A crise hídrica pela qual passa o Brasil e o baixo nível dos reservatórios de hidrelétricas podem aumentar a demanda por energia a partir do bagaço de cana-de-açúcar. No entanto, o tempo seco também pode prejudicar a oferta dessa energia, já que a falta de chuvas prejudicou canaviais brasileiros e a expectativa é de quebra de safra de cana no Centro-Sul, principal região produtora do País.

A biomassa representa 8,2% da capacidade instalada no Sistema Interligado Nacional (SIN), segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), e 77% da biomassa vem do bagaço da cana.

De acordo com números da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), a geração de energia elétrica para a rede pela biomassa caiu 2,65% neste ano até 16 de julho em comparação com o mesmo período de 2020. Boa parte desse recuo se deve à menor disponibilidade de cana. Ainda segundo a Unica, as usinas do Centro-Sul processaram 7,36% a menos de cana no acumulado da safra 2021/22, que começou em abril, na comparação com o ano anterior.

O gerente de bioeletricidade da Unica, Zilmar Souza, afirmou em nota ao Broadcast Agro que as geadas que atingiram canaviais nas últimas semanas também podem ter efeito na produção de bioeletricidade, porém, ainda não há uma estimativa sobre o tamanho do dano. “A influência desse evento tanto sobre a safra quanto a geração de energia deve ficar mais evidente na segunda quinzena de julho e no mês de agosto”, disse.

Mesmo com menor oferta, Souza afirma que o setor tem capacidade de “geração extra ao planejado inicialmente”. Entre as possibilidades para se oferecer mais energia, estão a compra de cana de outros fornecedores e a aquisição de materiais como casca de arroz e de amendoim, cavaco de madeira e pó de serra, que podem ser acrescentados ao bagaço de cana.

O diretor comercial da Tereos, Gustavo Segantini, disse que, embora a companhia espere cerca de 10% a menos na cana disponível para moagem nesta safra, a empresa “tem investido fortemente em tecnologias para aumentar o rendimento agrícola, assim como em projetos de eficiência energética, a fim de disponibilizar mais bagaço para cogeração, mantendo o potencial de cogeração da empresa e as projeções para atendimento da demanda de energia”.

O Ministério de Minas e Energia publicou, semana passada, uma portaria com diretrizes para oferta adicional de energia elétrica vinda de usinas à biomassa para atendimento ao Sistema Interligado Nacional (SIN).

“O objetivo é conferir maior viabilidade a uma possível geração adicional, com otimização dos recursos energéticos, aumentando a confiabilidade e a segurança no atendimento energético, com menores custos, proporcionando iniciativas dos agentes para ampliar sua geração de energia e contribuir de maneira complementar para o suprimento de energia ao SIN”, afirmou a pasta em nota à reportagem.

A Associação da Indústria de Cogeração de Energia (Cogen) estima que a energia vinda das usinas pode economizar entre 1 e 2 pontos porcentuais de água nos reservatórios de hidrelétricas no subsistema Sudeste-Centro-Oeste.

Souza, da Unica, diz que, este ano, a geração vinda das usinas estará “firme, sem intermitência, inclusive nos meses mais críticos do segundo semestre”, ajudando o SIN. A maior previsibilidade trazida pela portaria do MME – principalmente para a próxima safra de cana, já que as medidas têm como prazo dezembro do ano que vem – foi elogiada pelo setor sucroenergético.

O executivo da Unica afirma que a entidade “espera que a regulamentação contribua para reconhecermos que a biomassa funciona como um seguro, com uma geração não intermitente para o setor elétrico brasileiro, e deve ser estimulada para ganhar escala e evitar o ‘stop and go’ que vimos no desenvolvimento dessa fonte renovável nos últimos anos”.

Em um prazo mais longo, o pesquisador sênior do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Roberto Brandão, vê a possibilidade de evolução da energia via biomassa de cana já que o setor sucroenergético como um todo está vivendo momento melhor com a melhora nos preços de açúcar e de etanol.

“A biomassa de cana é um subproduto, ninguém planta cana e constrói usina para gerar energia”, diz ele. “Então a dinâmica da geração de bioeletricidade tende a estar associada ao próprio ciclo de crescimento da indústria sucroalcooleira, em que os principais produtos são açúcar e álcool”.

Para Segantini, da Tereos, o cenário atual “evidencia a importância do investimento em outras fontes de energia para diversificação da matriz energética brasileira e a biomassa da cana tem amplo potencial de contribuir para essa transformação”.

Augusto Decker
Com colaboração de Wilian Miron

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