Dúvida dos analistas – e também dos investidores – é saber se Silva e Luna comandará a petroleira de maneira profissional ou se obedecerá às demandas do Planalto Imagem: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Tão importante quanto uma eventual mudança na política de preços dos combustíveis, com a Petrobras sob o comando do general Joaquim Silva e Luna, é saber se a estatal manterá o plano estratégico de negócios traçado nas últimas gestões, dizem analistas. Especialmente em relação às vendas de ativos, com a prioridade dada à exploração do pré-sal e a saída de áreas menos rentáveis para a companhia.

Silva e Luna, indicado pelo presidente Jair Bolsonaro para ocupar a presidência da estatal no lugar de Roberto Castello Branco, já veio a público dizer não ver possibilidade de interferência nos preços dos combustíveis, uma vez que a decisão sobre o tema é colegiada.

Mas que é preciso enxergar, além dos acionistas e do lucro, o impacto causado pela empresa em toda a população. A intervenção foi feita após pressões dos caminhoneiros, por conta do aumento dos combustíveis.

“As refinarias (que estão no programa de desinvestimento) vendem derivados”, diz Gustavo Loyola, sócio da consultoria Tendências. “Se elas não pertencem mais à Petrobras, como ela vai poder controlar os preços?” Além disso, diz Loyola, a visão de generais não costuma historicamente ser pró-privatização. “Será que ele vai continuar nesse programa ou ter a confiança de potenciais compradores?”, diz.

Na prática, a dúvida dos analistas – e também dos investidores – é saber se Silva e Luna comandará a petroleira de maneira profissional ou se obedecerá às demandas do Palácio do Planalto.

“O Silva e Luna é mais um pau mandado, mais um (ministro da Saúde, general Eduardo) Pazuello”, diz Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central (BC), referindo-se à percepção de que o general à frente da Saúde teria permanecido no cargo apenas por não ter contestado as convicções de Bolsonaro em relação ao combate à pandemia, ao contrário de seus antecessores.

Para Sergio Werlang, também ex-diretor do BC, porém, o governo entende a necessidade de continuar o programa de vendas da Petrobras e a importância das privatizações em andamento. “Há (no governo) a compreensão de que a privatização é algo que ajuda a melhorar contas públicas e evita gastos públicos”, diz Werlang. “Não vejo por que (a troca de comando) atrapalharia privatização da Eletrobrás ou dos Correios, colocando-se uma golden share, que dê conforto à ala mais nacionalista.”

Queda

O consenso é que a incerteza deve fazer o preço dos ativos cair. Aumenta a incerteza dos investidores interessados sobre o retorno dos negócios à venda e as áreas em que atuarão – o que reflete diretamente sobre o valor final de eventuais ofertas. “O problema é que um fato desse, com a Petrobras, é ainda mais grave porque a empresa já vem de processo extremamente traumático”, afirma Carlos Kawall, da Asa Investments.

Petroleira mais endividada do mundo, por conta da política de preços de petróleo artificial e de investimentos questionáveis na gestão Dilma Rousseff e alvo do escândalo da Lava Jato, a Petrobras veio se recuperando, ao longo dos últimos anos. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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