A distribuição de combustíveis no Brasil está prestes a experimentar uma mudança radical, a partir da privatização de metade do parque de refino da Petrobras e da possibilidade de integração dessas operações em alguns dos maiores grupos privados do país. E, nesse novo ambiente, estabelecer uma regulação eficiente e garantir o abastecimento doméstico são temas prioritários, na avaliação da segunda maior distribuidora brasileira, a Raízen, dona de 21% do total comercializado.

Joint venture entre o grupo Cosan e a multinacional Shell, a empresa está no páreo para arrematar ao menos uma das refinarias colocadas à venda pela Petrobras – interessam as do Sul, Repar e Refap, e a de Pernambuco, Rnest, segundo fontes ouvidas pelo Valor.

A companhia, conforme Luis Henrique Guimarães, avalia que até o fim do primeiro semestre deverá ser fechado o processo de venda.

A Raízen, ou o grupo controlador Cosan/Shell, vai participar da disputa por meio de algum tipo de parceria ou consórcio, informou o executivo. O grupo Ultra, dono da rival Ipiranga e terceiro do ranking, também está no páreo. “Haverá mais players vendendo combustíveis. Privatizações, fiscalização em todos os níveis e infraestrutura são os temas chave para a distribuição neste momento”, diz Guimarães.

Questionado sobre as refinarias que atraem a Raízen, o executivo diz, sem detalhar, que todos os ativos do portfólio estão sendo avaliados e o interesse será diretamente afetado pelos termos regulatórios. Um dos riscos do negócio é o de intervenção estatal, tendo em vista o controle dos preços da gasolina e do diesel durante os governos petistas e, mais recentemente, a orientação do governo federal que levou a Petrobras a rever um reajuste já anunciado para o diesel. “Do ponto de vista de comparação de um momento com o outro, hoje o ambiente é muito melhor. Mas é preciso entender a governança futura”, afirma Guimarães.

Para isso, destaca o executivo, terá de ser elaborado um “grande arcabouço regulatório”, o qual passa pela Agência Nacional de Petróleo (ANP), após ampla discussão de questões em audiências públicas. Até hoje, todas as discussões estão vinculadas à Petrobras, monopolista no refino.

Sem experiência anterior em refino, a distribuidora de combustíveis entrou nesse mercado na Argentina no fim do ano passado, como reflexo da aquisição da rede de postos da Shell. O aprendizado tem sido grande – no país vizinho distribuição está integrada com o refino -, sobretudo diante da turbulência econômica no país vizinho e do congelamento dos preços dos combustíveis por determinado período, que trouxe pressão inesperada. Com isso, a previsão inicial de resultado antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) de US$ 210 milhões a US$ 260 milhões para a Raízen Argentina em 2019 foi cortada para o intervalo de US$ 160 milhões a US$ 200 milhões.

Sétimo maior mercado de combustíveis no mundo, o Brasil caminha para ocupar o quinto lugar em dois ou três anos e as perspectivas positivas atraíram novos concorrentes, entre os quais Glencore e Vitol. Ainda assim, as quatro grandes distribuidoras (BR, Raízen, Ipiranga e Alesat) concentram mais de 65% do mercado. A maior concorrência, para Guimarães, é positiva e deveria levar a outra rodada de consolidação, agora entre os players de médio porte. Em todo o país, são cerca de 150 distribuidoras e a atuação regional é o que faz a diferença nesse negócio, explica.

Um dos grandes desafios da distribuição é a sonegação fiscal ou o uso de instrumentos legais que possibilitam o não recolhimento de impostos. No Amazonas, dizem as grandes distribuidoras, a Atem Distribuidora de Petróleo mais que dobrou sua participação de mercado na esteira de uma liminar que garante isenção de PIS e Cofins na importação de gasolina para uso exclusivo na Zona Franca de Manaus. Para Guimarães, com os dados já disponíveis, seria possível apertar o cerco contra os sonegadores e corrigir as distorções existentes.

Com a privatização de quase 50% da capacidade de refino da Petrobras, mais da metade dos combustíveis vendidos às distribuidoras no Brasil virão de fora do sistema estatal a partir de 2021, quando será, de fato, efetivada a transferência dos ativos. A produção nessas refinarias, na avaliação do executivo, deverá ter como foco o mercado local, e o consumidor final também será beneficiado pelas mudanças nesse mercado, que vão além do fornecedor de combustíveis fósseis.

De acordo com Guimarães, o programa RenovaBio, de estímulo à produção de biocombustíveis, e o Novo Mercado de gás, cuja proposta é reduzir o preço do gás natural, terão impacto para as distribuidoras e também para o consumidor final, que mais à frente poderá escolher na bomba entre gasolina, etanol, diesel e gás.

A melhora dos volumes de combustível vendidos nos últimos meses e a percepção de que o governo brasileiro “está no caminho certo” levam a Raízen a projetar um 2020 positivo para a distribuição. A expectativa conservadora é de crescimento ligeiramente acima do Produto Interno Bruto (PIB), cujas estimativas oficiais são de expansão de 2,5%. Para 2019, que começou com vendas menores do que o esperado pelas distribuidoras, a previsão para a Raízen Combustíveis Brasil é de Ebitda de R$ 2,75 bilhões a R$ 2,95 bilhões, abaixo do projetado inicialmente, com investimentos de R$ 950 milhões a R$ 1,15 bilhão.

Fundada em 2010, incorporando os ativos dos dois grupos controladores, a companhia fecho o ano passado com receita líquida – apenas no negócio de distribuição combustíveis – de R$ 82 bilhões. Esse valor não considera a operação de Argentina. A Raízen opera ainda a área de Energia – produção de açúcar e etanol e geração de energia de biomassa.

Em outra frente, a empresa vai expandir sua atuação em lojas de conveniência por meio de joint venture com a mexicana Femsa Comercio, dona da bandeira Oxxo, anunciada em agosto. Enquanto a marca Shell Select continuará nos postos da rede, a Oxxo será usada em lojas de rua. A nova empresa entrou em operação em 1º de novembro, sob a liderança do executivo Rodrigo Patuzzo, que era diretor da Shell Select e, pelos cálculos do banco Santander, pode abrir 500 lojas nos próximos três anos.

Conforme Guimarães, que ocupa um assento no conselho da joint venture, a implantação das lojas Oxxo ganhará tração em 2021. Em 2020, o plano é abrir alguns pontos no Estado de São Paulo. Já a abertura de novas unidades Shell Select manterá o ritmo de 300 lojas ao ano, ampliando a base atual de mais de 1 mil lojas.

Fonte: Valor Econômico

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